A globalização é feminina

A globalização é feminina


Jorge Forbes

 

Depois da onda recente de manifestações, voltamos a tudo como era dantes? Seguramente não. O que as ruas expuseram, chacoalharam, berraram, estamparam, foi o que há um tempinho já vinha se cozinhando no fogão da pós-modernidade. O mundo, nós seres humanos estamos descobrindo uma nova maneira de expressar o que desejamos individual e coletivamente. Essa nova maneira, por ser realizada em um laço social horizontal, não mais vertical; por privilegiar o singular sobre o comum a todos; por não buscar grandes causas, mas a delicadeza dos afetos, é chamada de feminina. A globalização, a nova era em que vivemos, por conseguinte, é feminina. Muito diferente essa forma de ser, da anterior. Para deixar mais claro, vejamos um exemplo banal. Pensemos nos hábitos de se vestir de homens e mulheres. Um homem não vê nenhum problema em ir a uma festa de smoking, ou seja, vestido da mesma forma que todos os outros homens. Já uma mulher pode ter um ataque de desconforto se descobrir que seu vestido exclusivo, não é tão exclusivo, por estar enfeitando mais alguém. O homem se dá bem em grupo, gosta de time, de torcida, de roda de Chopp; uma mulher tenderá para a exclusividade, o singular, o detalhe. Essas características tão comuns no cotidiano reaparecem nas alterações atuais do laço social. Não estamos na época das poucas e grandes lutas, próximas ao universo masculino, mas das pequenas e multiformes expressões do desejo, habituais no universo feminino (se é que o feminino faz universo, dado a variedade).

        Ainda hoje, ao menos até antes dessa epidemia de manifestações, não passava semana em que um pai ou uma mãe não entrasse em meu consultório para se queixar de seu filho. A cantata se repetia: - “É um alienado, não se interessa por nada de importante, não sabe o nome dos ministros, nem mesmo o de todos os estados do Brasil, com as suas respectivas capitais. Ouve uma música que é um bate-estaca, não namora direito, fica, imagina, fica! Fala por murmúrios, vive grudado numa telinha de algum aparelho, não lê, não pensa. É meu filho!? Eu que de bandeira em punho fui para as ruas, expus minha vida, quase fui preso etc, etc.” Quem não reconhece, provavelmente em si mesmo, caro leitor, esse personagem, esse pai ou mãe angustiados?

        Vamos acalmá-los, ao menos tentar. O moço de hoje, participante da geração mutante, realmente não discute como antigamente, nem namora como antigamente, nem dança como antigamente, aliás, não faz quase nada como antigamente. Essa é a graça. Algo que chamou a atenção nessas manifestações de agora é a enorme aprovação popular acompanhada de um não saber o que se estava apoiando. Ridículo? Não, analítico. Também aí, as passeatas não são mais como antigamente. Quando oitenta por cento das pessoas dizem estar apoiando um não sei o que, estamos diante de um fenômeno onde a ação precede a razão, o que leva, em seguida, à busca de um diálogo esclarecedor, como pudemos constatar e vivenciar.

        Vimos dois países em confronto: o país dos burocratas, buscando desesperadamente resposta aos clamores das avenidas - iguais a baratas tontas que não conhecem a saída do perigo, nesse caso o povo, e pensam que marqueteiros políticos conhecem, ainda insistindo no jogo de cena - e o país dos conectados, dos que estão ligados na rede que permite o jogo das singularidades articuladas e que provou que o virtual se expressa consequentemente no real, se é que ainda é possível separar uma instância da outra.

        As ações de vandalismo, que não têm nada a ver com as manifestações virais, todo o contrário, refrearam, pelo momento, as expressões populares. Elas voltarão.

        A globalização é feminina. Isso dá certo savoir faire mais confortável às mulheres, mais só certo, não uma garantia. Ter corpo de mulher não garante o feminino. Esse, o feminino, é tão surpreendente no convívio, quanto as ruas brasileiras o são para o mundo. Os jornais do mundo todo se perguntam: - “O que está acontecendo com o Brasil?” Pois bem, o que está acontecendo é que o brasileiro sabe que o desejo vai além da necessidade e não tem medo de escolhê-lo. Para nós, vinte centavos valem muito barulho e fazem acordar.

(publicado na revista Gente IstoÉ - agosto 2013)


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